Santo do Dia

Priscila, Áquila e o Beato Eugênio III: testemunhas da fé e da renovação da Igreja

No calendário litúrgico da Igreja Católica, o dia 8 de julho é marcado por duas celebrações que, apesar de distantes no tempo, se unem pelo mesmo fio condutor: o compromisso com o Evangelho e a coragem diante dos desafios históricos.

De um lado, a memória de São Priscila e São Áquila, casal que acompanhou São Paulo em sua missão e desempenhou um papel essencial na formação das primeiras comunidades cristãs. De outro, a lembrança do Beato Eugênio III (1080-1153), papa que guiou a Igreja em um dos períodos mais turbulentos da Idade Média, buscando a renovação espiritual e institucional.

A história dessas figuras nos convida a refletir sobre a importância dos leigos e pastores no dinamismo missionário da Igreja e a redescobrir o valor do testemunho cristão nas mais diversas circunstâncias.

Priscila e Áquila: discípulos e missionários com São Paulo

Entre os colaboradores mais próximos de São Paulo, Priscila (ou Prisca) e Áquila ocupam lugar de destaque. O casal é mencionado em várias cartas paulinas e nos Atos dos Apóstolos, sempre como exemplo de zelo missionário e hospitalidade.

Áquila era natural do Ponto, região situada no norte da atual Turquia. Ele e Priscila viviam em Roma, mas foram expulsos da cidade pelo decreto do imperador Cláudio, que em 49 d.C. ordenou a saída dos judeus da capital imperial (At 18,2). Refugiados em Corinto, eles conheceram Paulo, com quem passaram a trabalhar na mesma profissão – a de fabricantes de tendas – e, sobretudo, a partilhar a missão evangelizadora.

A partir desse encontro, o casal se tornou colaborador ativo do apóstolo. Acompanhando Paulo a Éfeso, eles abriram as portas de sua casa para acolher a comunidade cristã nascente. O Novo Testamento destaca a atuação do casal na formação de novos discípulos: eles, por exemplo, instruíram com “maior precisão” o judeu Apolo, um pregador eloquente, mas que ainda não conhecia plenamente a doutrina cristã (At 18,24-26).

São Paulo, em sua Carta aos Romanos, não hesita em elogiá-los:

“Saudai Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Eles arriscaram a própria vida por mim. Não sou só eu que lhes sou agradecido, mas também todas as igrejas dos gentios” (Rm 16,3-4).

Essas palavras revelam a centralidade do casal na missão da Igreja primitiva. Priscila e Áquila simbolizam a importância do laicato engajado, algo que o Concílio Vaticano II, muitos séculos depois, reconheceria como essencial para a vida e missão da Igreja (Lumen Gentium, 33).


 

Beato Eugênio III: um papa entre crises e reformas

 

No mesmo dia, a Igreja também recorda o Beato Eugênio III, papa entre os anos 1145 e 1153. Sua eleição ocorreu em um período de grandes tensões entre o papado, o Império e as cidades-estado italianas.

Natural de Pisa, Eugênio III era monge cisterciense e discípulo de São Bernardo de Claraval, que exerceu grande influência sobre ele. Ao ser eleito pontífice, Eugênio enfrentou a oposição de Arnoldo de Brescia, um reformador radical que incitava revoltas contra o governo papal em Roma. Essas dificuldades obrigaram o papa a viver fora da cidade durante parte de seu pontificado.

Mesmo em meio a crises políticas, Eugênio III não deixou de impulsionar a renovação espiritual da Igreja. Ele apoiou o crescimento das ordens religiosas, em especial os cistercienses, e buscou fortalecer a disciplina eclesiástica. Em 1147, convocou a Segunda Cruzada, respondendo ao pedido de ajuda dos cristãos do Oriente após a queda de Edessa.

São Bernardo, que escreveu a célebre obra De Consideratione para orientar Eugênio em seu ministério, destacou a necessidade de um papa que fosse antes de tudo pastor:

“Considere-se pastor mais do que príncipe; cuide mais das almas do que dos reinos.”

A atualidade do testemunho

Celebrar juntos Priscila e Áquila e o Beato Eugênio III é um convite a contemplar a Igreja como uma comunidade de diferentes vocações – leigos, consagrados e ministros ordenados – chamados a colaborar na mesma missão.

O testemunho de Priscila e Áquila nos faz pensar no papel dos casais e famílias cristãs, hoje mais do que nunca desafiados a serem “igrejas domésticas” (cf. Amoris Laetitia, 67). Eles lembram que a evangelização não é tarefa exclusiva dos clérigos, mas uma responsabilidade compartilhada, como insiste o Papa Francisco ao falar de uma Igreja “sinodal” e em saída” (Evangelii Gaudium, 20).

Já Eugênio III nos recorda que os pastores da Igreja são chamados a conduzir o povo de Deus com humildade e discernimento, mesmo em tempos de grande turbulência. Sua figura é um exemplo de serviço pastoral em meio às contradições da história.

No dia 8 de julho, ao recordar Priscila, Áquila e o Beato Eugênio III, a Igreja nos oferece modelos de santidade complementares: um casal leigo que fez da hospitalidade e do anúncio do Evangelho o centro de sua vida, e um papa que, com coragem e , buscou renovar a Igreja em meio às tempestades políticas do século XII.

Ambos nos convidam a renovar nosso compromisso batismal e a participar, com alegria e responsabilidade, na missão da Igreja no mundo de hoje.

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