Santo do Dia

São João XXIII e São Filipe, o Diácono

O dia 11 de outubro, no calendário litúrgico da Igreja Católica, evoca dois nomes que, embora separados por quase dois milênios, partilham o mesmo espírito evangélico de serviço e abertura ao Espírito Santo. São João XXIII, pontífice do século XX, e São Filipe, o Diácono, pertencente à geração apostólica, são celebrados nesta data por sua dedicação à missão da Igreja e por seu testemunho de viva em contextos históricos decisivos.

São João XXIII, nascido Angelo Giuseppe Roncalli em 1881, na região de Bérgamo, na Itália, é amplamente reconhecido como um dos papas mais influentes da história recente da Igreja. Seu pontificado, ainda que breve — de 1958 a 1963 —, foi profundamente transformador. Homem de origem humilde, cultivou ao longo da vida um espírito pastoral de acolhimento, simplicidade e diálogo. Foi este mesmo espírito que o conduziu, em 1959, à convocação do Concílio Vaticano II, um evento que se tornaria um marco irreversível na trajetória eclesial contemporânea.

Ao convocar o Concílio, João XXIII não tinha em mente reformas pontuais ou correções disciplinares, mas um verdadeiro aggiornamento, isto é, uma atualização da Igreja diante dos desafios do mundo moderno. Em seu discurso de abertura do Concílio, proferido em 11 de outubro de 1962 — data posteriormente escolhida para sua memória litúrgica —, o papa expressou sua visão de uma Igreja não condenatória, mas materna, disposta a escutar e a oferecer ao mundo os tesouros perenes do Evangelho com nova linguagem e sensibilidade pastoral.

Além de seu papel conciliar, João XXIII destacou-se também por sua atuação diplomática, tanto antes quanto durante o papado. Durante a Segunda Guerra Mundial, empenhou-se na proteção de judeus perseguidos. Como papa, empenhou-se na construção da paz, especialmente durante a crise dos mísseis em Cuba, e escreveu duas encíclicas fundamentais: Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963), esta última dirigida “a todos os homens de boa vontade” — um gesto inédito que simboliza sua abertura universal. Foi canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014, junto a São João Paulo II.

Contudo, a liturgia do dia 11 de outubro também nos convida a olhar para as origens da Igreja, por meio da figura de São Filipe, o Diácono. Presente no livro dos Atos dos Apóstolos (At 6,1-6), Filipe foi um dos sete homens escolhidos pela comunidade apostólica para o serviço das mesas — uma expressão da caridade concreta da Igreja nascente e uma das primeiras manifestações do ministério ordenado diaconal.

Entretanto, sua missão foi muito além da assistência material. Após a dispersão provocada pela perseguição em Jerusalém, Filipe emergiu como um verdadeiro evangelizador. Foi ele quem anunciou o Cristo aos samaritanos, rompendo barreiras culturais e religiosas, e quem catequizou e batizou o eunuco etíope — um episódio marcante que simboliza a universalidade do Evangelho desde seus primórdios.

Este encontro com o eunuco, descrito em Atos 8, é emblemático: o Espírito conduz Filipe ao deserto, lugar de revelações e decisões, para levar a Boa Nova àquele que, aos olhos do judaísmo oficial, era considerado um excluído. A abertura radical ao outro, que João XXIII buscaria no século XX, já estava inscrita no ministério de Filipe desde o século I.

Ambos os santos celebrados neste dia, cada um a seu modo, são testemunhas de uma Igreja em saída, fiel ao Evangelho e sensível aos sinais dos tempos. João XXIII e Filipe nos ensinam que a missão eclesial exige escuta do Espírito, discernimento histórico e, sobretudo, caridade pastoral.

Hoje, mais do que nunca, em um mundo fragmentado por polarizações e indiferenças espirituais, o testemunho desses dois homens de Deus ressoa com atualidade profética. Um nos convida à renovação eclesial com ternura e coragem; o outro, à evangelização ousada que atravessa fronteiras. Ambos são, enfim, mensageiros da esperança cristã, viva e operante na história.

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