Nasceu em 1795, na província de Bac Ninh, Vietnã, Tran An Dung, em uma família tão pobre que não podia sustentá-lo e, por isso, confiou seu cuidado a um catequista católico, responsável pela sua educação cristã. Batizado com o nome de André, desde jovem ele demonstrou uma profunda vocação à vida religiosa e, posteriormente, foi ordenado sacerdote. Em 1823, assumiu o cargo de vice-pároco em Dongchuan, onde se destacou por seu estilo de vida simples, sua atenção constante aos pobres e sua sobriedade, virtudes que lhe valeram o respeito e o amor da comunidade.
Entretanto, a fé cristã no Vietnã enfrentava duras perseguições sob o domínio da monarquia imperial, que via no cristianismo uma ameaça à ordem tradicional. Em 1833, após celebrar a Missa, André Dung-Lac foi preso pela primeira vez pelas autoridades imperiais. Graças à ajuda dos fiéis, que reuniram uma quantia significativa para resgatá-lo, foi libertado. Contudo, ciente do risco que corria, mudou seu nome para Lac, numa tentativa de passar despercebido e continuar seu ministério evangelizador, especialmente em regiões mais remotas e perigosas, como as províncias de Hanói e Nam-Dinh.
Porém, a convicção de André em seu chamado ficou clara quando, no final de 1839, foi preso pela terceira vez, desta vez junto com seu irmão Pedro. Percebendo que sua missão era derramar seu sangue pela fé naquela terra tão atormentada, recusou-se a pagar por sua libertação, aceitando a vontade de Deus para sua vida. Durante a transferência para a prisão de Hanói, inúmeros fiéis se reuniram para se despedir, chorando, mas ele os encorajava a permanecer firmes na fé e a perseverar na vida cristã.
Na nova prisão, André e seu irmão foram pressionados a renegar a fé cristã, a retratar-se e até a pisar na cruz — gesto que responderam ajoelhando-se e beijando-a em sinal de fidelidade ao Senhor. Sabiam que a sentença inevitável seria a morte por decapitação, fato consumado no dia 21 de dezembro, nas proximidades do portão de Cau-Giay, na periferia de Hanói. Este martírio não foi um ato isolado, mas parte de uma longa história de perseguições.
De fato, entre 1645 e 1886, o Vietnã emitiu 53 editais contra os cristãos, resultando na morte de aproximadamente 113 mil fiéis, numa tentativa clara da monarquia de destruir a Igreja emergente, confiscando bens e dispersando comunidades. Entretanto, a fé dos cristãos vietnamitas resistiu com firmeza admirável, gerando uma sequência de testemunhos que inspiraram gerações.
Em reconhecimento a esse testemunho, o Papa Leão XIII beatificou, em 1900, um primeiro grupo de 64 mártires vietnamitas. Posteriormente, Pio X beatificou mais três grupos, que incluíam dominicanos, e, finalmente, Pio XII beatificou um quinto grupo em 1951. Somente em 1986, a Igreja unificou todos esses grupos em um único conjunto de 117 mártires — sacerdotes, religiosos e leigos — que foram canonizados por São João Paulo II em 1990, numa celebração que enalteceu o heroísmo e a fé deste povo.
Dentre eles, o líder mais conhecido foi Santo André Dung-Lac, cuja vida simboliza a coragem e a fidelidade diante da perseguição. Dos 117 santos, 96 eram vietnamitas, 11 pertenciam à Ordem dos Pregadores (dominicanos) da Espanha, e 10 eram franceses da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris, mostrando o caráter internacional e ecumênico do testemunho cristão naquele contexto.
Hoje, a memória desses mártires convida a Igreja e o mundo a refletir sobre o poder da união comunitária em favor da fé, sobretudo em contextos hostis. O exemplo desses primeiros cristãos vietnamitas animou muitos outros a se entregarem pela fé, abraçando uma espiritualidade que transcende o efêmero para focar na eternidade prometida por Cristo. Essa comunidade de fé unida no amor a Jesus foi capaz de suportar até o martírio, revelando o alcance da graça divina no coração humano.
Que a recordação dos mártires do Vietnã nos fortaleça nos momentos de fraqueza e nos inspire a perseverar firmes no testemunho cristão. Rezem por nós, Santo André Dung-Lac e todos os companheiros mártires, para que, assim como eles, sejamos fiéis até o fim.
Minha oração: “Nossos companheiros mártires, rogamos por vossa fortaleza nos momentos de tentação e apostasia. Preparai-nos para as moradas eternas onde viveremos para sempre felizes com Jesus. Amém.”