Santo do Dia

São Valeriano: o bispo exilado por fidelidade a Cristo

São Valeriano, celebrado pela Igreja no dia 15 de dezembro, é um daqueles nomes silenciosos, mas poderosamente eloquentes, que emergem das sombras da Antiguidade cristã para testemunhar, com a própria vida, o Evangelho vivido até às últimas consequências. Bispo da cidade africana de Avensano — identificada hoje com as ruínas de Bordj-Hamdouni, no atual território da Tunísia —, Valeriano viveu durante o turbulento século V, tempo marcado pelas invasões bárbaras e pela tensão entre o Império Romano em decadência e os povos germânicos convertidos ao arianismo.

A província romana da África Proconsular, que outrora fora celeiro teológico da cristandade com figuras como Tertuliano, Santo Cipriano e Santo Agostinho, conheceu nos tempos de São Valeriano um cenário muito diferente: o domínio dos vândalos, liderados por Genserico e depois por seu filho Hunerico, impôs uma dura perseguição contra os bispos católicos. Esses reis, embora cristãos arianos, viam na Igreja católica latina não apenas uma divergência doutrinal, mas uma ameaça política ao seu domínio recém-instalado.

É nesse contexto que emerge São Valeriano, sucessor do bispo Fortunato e segundo nome conhecido da linhagem episcopal de Avensano. Conforme nos relata o historiador eclesiástico Vitor de Vita em sua obra Historia persecutionis Africanae Provinciae, o bispo Valeriano já era um homem idoso, com mais de oitenta anos de idade, quando foi confrontado com a ordem de entregar à coroa vândala os bens sagrados da Igreja local. Sua recusa foi imediata e firme, não como um ato político, mas como expressão de uma que não se dobra à lógica da violência ou da espoliação sacrílega.

Como consequência, São Valeriano foi violentamente expulso da cidade, e não só. Genserico ordenou que ninguém, absolutamente ninguém, lhe oferecesse abrigo, nem nas cidades nem nos campos. Condenado, portanto, a um exílio sem refúgio, ele passou a viver sob o céu aberto, dormindo à beira das estradas e nas praças públicas. Era um bispo sem casa, um pastor sem templo, mas jamais sem rebanho. Muitos vinham até ele em busca de conselho, confissão, consolo espiritual. Ele tornou-se um verdadeiro “confessor”, no sentido pleno da palavra: alguém que, sem chegar ao martírio sangrento, confessou Cristo com a própria vida até o fim.

Tal despojamento evoca inevitavelmente a imagem do próprio Cristo, que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58), e de São Francisco de Assis, ícone da pobreza radical. Contudo, São Valeriano oferece-nos um testemunho singular por ter vivido tal abandono na velhice, quando o corpo naturalmente clama por repouso, por conforto, por cuidado. Sua fragilidade física não impediu a fortaleza espiritual, e sua rejeição pública não eclipsou a sua autoridade moral. Pelo contrário, foi no exílio que sua figura se engrandeceu.

É possível imaginar o sofrimento físico de um ancião exposto ao relento, às intempéries, à solidão. No entanto, mais impressionante do que sua resistência corporal foi a sua liberdade interior: homem de Deus, soube permanecer fiel mesmo sem estrutura, mesmo sem instituição, mesmo sem amparo humano. Assim, São Valeriano tornou-se símbolo de resistência eclesial e fidelidade à missão episcopal, mesmo quando tudo ao redor desmoronava.

Junto a ele, outros oito bispos africanos foram igualmente exilados, compondo um coro silencioso de confessores que sustentaram a fé católica na região em meio à tempestade herética e política. São Valeriano, de modo especial, manteve-se ativo até o fim. Morreu, ao que tudo indica, durante uma de suas peregrinações espirituais. Sua santidade foi reconhecida já na Antiguidade: Vitor de Vita o chama de sanctus Valerianus, e seu nome aparece nos martirológios de Floro e Adonis nas datas de 28 de novembro e 15 de dezembro, sendo esta última a que prevaleceu no Martirológio Romano.

Portanto, ao contemplarmos a vida de São Valeriano, somos convidados a refletir sobre a essência da vocação cristã: fidelidade a Deus acima de tudo, despojamento das seguranças humanas, disposição para o testemunho mesmo na adversidade. Seu exemplo ilumina especialmente o valor dos idosos na vida da Igreja — não como figuras decorativas ou ultrapassadas, mas como colunas silenciosas de sabedoria, fortaleza e fé operante.

Sua vida ecoa hoje como intercessão e como provocação: até que ponto estamos dispostos a perder tudo para permanecer fiéis? Onde estão os “Valerianos” de nosso tempo, capazes de suportar o exílio cultural e espiritual em nome da verdade?

Minha oração

“Ó santo bispo Valeriano, tu que foste fiel até o fim mesmo na velhice e no abandono, intercede por todos os nossos idosos, para que nunca se sintam inúteis ou esquecidos. Que tua coragem inspire os pastores de hoje a resistirem às pressões do mundo com a firmeza da fé. Dá-nos o dom da liberdade interior, para que jamais nos curvemos diante do erro, mas permaneçamos em pé, mesmo quando nos faltarem o teto e o aplauso. Amém.”

São Valeriano, rogai por nós!

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